segunda-feira, 27 de outubro de 2014

III  Seminário Internacional de Educação em Ciências

A Universidade Federal do Rio Grande – FURG e o Núcleo de Estudos em Epistemologia e Educação em Ciências – NUEPEC promovem o 3º Seminário Internacional de Educação em Ciências – SINTEC. Trata-se de um evento que congrega interessados na área de Educação em Ciências em seus mais diferentes aspectos e campos. Procura promover, principalmente, o debate de cunho epistemológico e paradigmático sobre o que é campo da Ciencias e sua função, papel e contexto na contemporaneidade em que vivemos. Articula-se com com a tecnologia e suas aplicações na na medida em que o desenvolvimento cientifico estreita-se, cada vez mais, com as possibilidades de avanço tecnológico.

Em particular, temos procurado articular neste  evento as questões vinculadas a Educação Basica e formação de professores afim de problematizar, debater e conflitar os contextos de ensino, desde a pré-escola ate a universidade. Tambem, temos direcionado esforços para articular pesquisadores da America Latina e Africa com a intenção de proporcionar novas redes de cooperação no campo a Educação Cientifica e Tecnológica.


O SINTEC integra as ações brasileiras da Semana Nacional de Ciencia e Tecnologia, promovida  pelo Ministerio de Ciencia, Tecnologia  & Inovação (MCTI).

Participação no Seminário

O desenvolvimento do projeto "Educação em Ciências e Educação Patrimonial: uma relção possível através da ciência da conservação e restauração de bens culturais" na EEEFM "Marinete de Souza Lira" em Feu Rosa motivou a professora de Maria Aparecida de Carvalho inscrever o mesmo no SINTEC e como sendo um projeto interdisciplinar entre Química, Filosofia, Arte e Matemática a acompanhei na apresentação. Em frente a exposição do nosso pôster estava um pôster do projeto "Corpo, Gênero, Sexualidade e Relações Étnico-raciais na formação de professores no Ensino de Ciências e Matemática" apresentado pela estudante de pedagogia Carla Adriane Marcelino Damaceno que me explicou sobre o título. Ela diz que em seu há uma professora preocupada com essa questão e dedica parte de sua disciplina para trabalhar este assunto com seus alunos e baseada nessa causa propõe que os cursos de licenciatura se propusessem a dedicar uma disciplina sobre o tema do pôster.

Discutimos sobre como o professor precisa estar preparado para lidar com situações cotidianas de sala de aula sobre o tema e ajudar nossos alunos a construir sua identidade, para identificar e interver sobre assuntos como racismo e gênero ele necessita de conhecimento sobre o assunto e muitas vezes os professores não dispõe de tempo para pesquisar e dominar o assunto, então a estudante junto com os colegas de sala trouxeram para o seminário a abordagem do tema.






Inserção das mulheres negras nos movimentos sociais                          


Texto de Silvana Bárbara com colaboração de Juliana Paiva.
Nas últimas décadas, diferentes movimentos sociais emergiram e se destacaram na América Latina. Apesar da diversidade de ideologias, objetivos e da adoção de estratégias distintas, os diferentes grupos partiram de um pressuposto comum:
“[...] De um modo geral, os movimentos sociais contemporâneos trazem consigo o pressuposto de que transformar a realidade não é só modificar a sociedade a partir dos aparelhos do Estado, é modificá-la também ao nível das ações concretas da sociedade civil. Temos então que o Estado, enquanto campo institucional de atuação política privilegiado, e a sociedade civil, com maior força numérica e poder na produção cultural, se interpelam, e vemos surgir esse novo sujeito social que redefine o espaço da cidadania [...]” Referência: RODRIGUES & PRADO, Minorias, reconhecimento e a fronteirização de saberes e experiências militantes, pg. 2, 2007.
Neste contexto, aqui se pretende ressaltar o desenvolvimento do Movimento Feminista e do Movimento Negro e, de como ambos foram refratários às questões das mulheres negras. A década de 1970 foi um marco para estas duas formas de mobilizações, pois, é nesse período que ocorreram o ressurgimento do Movimento Feminista e a criação do Movimento Negro Unificado (MNU).
Apesar da inegável importância desses movimentos, desde o início, as mulheres negras se depararam com grandes empecilhos para sua efetiva participação nas duas formas de mobilização. Por um lado, o Movimento Feminista não considerava a relevância das questões raciais, considerando com descaso a luta negra dentro da ação das mulheres. Por sua vez, o Movimento Negro estava muito afastado das demandas e discussões de gênero, além de não propor lutar contra discriminação sofrida pelas mulheres.
Por estas razões, as mulheres negras procuraram criar e consolidar um movimento que atendesse efetivamente às suas demandas. Um espaço coletivo para o compartilhamento de experiências, formulações de pautas reivindicatórias e construções de estratégias de luta. Um movimento de onde seu grito contra a dupla opressão ecoasse e pudesse ser ouvido por todas as pessoas.
Bloco das Mulheres na Luta contra a Violência do Estado, partindo da Praça da Estação. Foto de Fora do Eixo no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Bloco das Mulheres na Luta contra a Violência do Estado, partindo da Praça da Estação. Foto de Fora do Eixo no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Neste contexto, surgiu o Movimento de Mulheres Negras (MMN). As dificuldades enfrentadas foram muitas, inclusive a de se desvincular dos movimentos dos quais vieram. Além de formularem pautas específicas, as mulheres do MMN se viram diante do desafio de fazer com que a sociedade — e militantes de outros movimentos sociais — entendessem sua importância e legitimidade. Pois, muitas vezes as mulheres do MMN se tornaram alvos preferenciais de piadas e críticas; não raro suas manifestações serem ignoradas.
Mas isto não é “coisa das antigas”?
Para quem desconhece a militância das mulheres negras é possível se equivocar e imaginar que, atualmente, essa dificuldade de pautar lutas é coisa do passado, “das antigas”. Afinal, hoje não haveria mais a necessidade de um movimento específico, uma vez que as negras estariam plenamente representadas dentro dos movimentos Negro e Feminista. No entanto, esta não é a realidade.
Infelizmente, ainda há feministas brancas que ignoram o racismo de nossa sociedade ao tratar das questões de gênero. Afirmam que “desconhecem” a questão da dupla opressão e argumentam que as questões raciais podem ser tratadas com eficácia no Movimento Negro ou que são secundárias no Movimento Feminista.
Grande ilusão de feministas que tem como livros de cabeceira apenas os escritos por autoras européias. Obviamente, sem tirar a maestria destas escritoras e líderes feministas — que muito contribuíram para a origem e permanência do Movimento Feminista — mas, o momento é também de acompanhar e se engajar nas falas e reivindicações das feministas negras. De fato, é por todo este “desconhecimento” que o perfil dominante do Movimento Feminista continua sendo o de mulher-branca-classe-média.
Algumas mulheres negras sentem-se pouco à vontade para participar ativamente dentro do Movimento Feminista. Isto é justificável pelo pouco espaço é dado a elas. Por serem alvo de piadas que as desumanizam ou pela dificuldade de colocarem suas pautas dentro do Movimento. Porém, sobretudo, porque não é raro que suas falas recebam pouca atenção das demais feministas.
Além disso, expor o racismo pelo qual sofrem faz lembrar muita coisa vivida que pretendem esquecer. No entanto, é preciso ter em mente que não se pode tentar esquecer uma vida de opressão. E que, se as mulheres negras silenciarem sua indignação e não mostrarem para a sociedade que sofrem o preconceito cruel (que agora ressurge velado), não serão vitoriosas. A luta iniciada por poucas mulheres na década de 1970 deve seguir e se fortalecer a cada dia, lembrando como tudo começou.
Outro problema é chegar à conclusão de que não é apenas no Movimento Feminista que as mulheres negras sentem-se em segundo plano. O próprio Movimento Negro não dá a estas mulheres a oportunidade de defender suas causas. Dentre os poucos grupos do MN atuantes, a minoria tem um núcleo para tratar do movimento de mulheres. Pelo contrário, o machismo ainda está muito presente, principalmente em grupos onde os líderes são africanos, pois trazem consigo sua cultura, por vezes muito machista.
Encontro Geração - Gênero, Raça, Campo e Ação. Foto: Carol Garcia / SECOM - BA no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Encontro Geração – Gênero, Raça, Campo e Ação. Foto: Carol Garcia / SECOM – BA no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Outros movimentos sociais, que apresentam núcleos diversos, também excluem a opressão específica das mulheres negras. Nestes movimentos não é raro acontecer a seguinte divisão: núcleo feminista trata das causas específicas das mulheres; núcleo negro das causas específicas negras. E a mulher negra, que é vítima do machismo e do racismo, simultaneamente, como fica? Não é difícil concluir que fica praticamente esquecida.
Quando ocorre a abertura
O Movimento de Mulheres Negras, que teve início em 1970, trouxe como principal conquista o engajamento destas mulheres em seguir na sua luta e mostrar sua indignação à sociedade. Diante disto, as demais militantes feministas começaram a entender melhor a necessidade de reconhecer a pauta das mulheres negras dentro de suas especificidades. Desta forma, aos poucos, estas mulheres vem sendo inseridas no Movimento Feminista.
Um bom exemplo desta inserção é o caso da Marcha das Vadias de Curitiba. O grupo que existe há três anos e, que no mês de julho, realiza uma grande mobilização feminista nas ruas da cidade, desde seu início procurou pautar as causas negras. Mas, para que isto acontecesse, precisava ter na organização da Marcha mulheres negras que estivessem dispostas a se manifestar pelas suas próprias causas.
Este ano, as organizadoras da Marcha chamaram novamente algumas mulheres negras para participar ativamente da construção do Movimento. Diante dessa abertura, estas mulheres assumiram o compromisso de inserir no grupo as suas lutas. Puderam reconhecer que nele as suas causas seriam tratadas com seriedade e que a abertura concedida foi bastante propícia. Desta forma, está sendo formada dentro da Marcha uma Comissão Negra, com o objetivo de incluir o Feminismo Negro dentro das reflexões e ações do grupo.
Porém, estas aberturas podem não significar muitos avanços, sendo apenas oportunidades de pautar as demandas das mulheres negras, mesmo que lentamente. Toda forma de luta e resistência deve ser colocada visivelmente para o sistema, com o objetivo de que este reconheça que não há exageros em nossas manifestações, pois o racismo é um inimigo contra o qual devemos lutar com a mesma força que combatemos o machismo .
Compreender a trajetória, o desenvolvimento e a atualidade da luta das mulheres negras brasileiras, nas últimas décadas, é essencial para que feministas brancas possam repensar e ultrapassar o feminismo demasiadamente brancocêntrico e classista em um país como o Brasil, de maioria negra e socialmente ainda tão desigual

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Anita Prestes apresenta palestra sobre os 90 anos da Coluna Prestes


Filha dos históricos militantes comunistas Luis Carlos Prestes e Olga Benário, Anita Leocádia Prestes nasceu num campo de concentração da Alemanha de Hitler. Graças a uma campanha internacional, pode ser entregue a sua avó depois do período de amamentação. Sua mãe, Olga, terminaria morta em uma câmara de gás. Anita seguiu os passos dos pais na militância e formou-se como doutora em História Social, tornando-se professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

No dia 28 de maio, Anita Prestes estará em Vitória para a palestra "A atualidade da Coluna Prestes: 90 anos depois", repercutindo o movimento de militares liderado por seu pai nos anos 20, denunciando a pobreza e o descaso dos políticos no Brasil.

A palestra acontece no Cine Metrópolis, na Ufes, a partir das 19h. O evento é organizado pela Casa da América Latina do Espírito Santo, Secretaria de Cultura da Ufes, SindiupesLaboratório de Estudo em História Política e das Ideias (Lehpi)Levante Popular da JuventudeEditora Expressão PopularRádio Universitária e programa Soy Loco Por Ti.

Confira abaixo uma breve entrevista com Anita Leocádia Prestes, realizada especialmente para a Casa da América Latina do Espírito Santo

Como a história de vida de seus pais influenciou em sua trajetória política e profissional? 
Fui criada numa família de comunistas e desde cedo conheci e admirei a história dos meus pais. Modestamente, sempre procurei seguir o exemplo deles de dedicação à causa da emancipação da humanidade da exploração capitalista, de participação na luta por mundo melhor, com justiça social e liberdade para todos, por um futuro socialista. 

 Qual a importância histórica da Coluna Prestes e o que ela pode ensinar para os dias de hoje? 
A Coluna Prestes revelou a capacidade de luta do povo brasileiro e nisso reside sua atualidade. Mostrou que, no desenrolar das lutas populares, quando surgem lideranças autênticas, capazes de captar os seus anseios, torna-se possível mobilizar, organizar e conduzir os trabalhadores pelo caminho de transformações revolucionárias. Nos dias de hoje, tais transformações terão que apontar para o socialismo – única solução definitiva para os males que afetam os povos do continente latino-americano. 

Como vê a integração latino-americana hoje em dia? Por quê ela é importante para o avanço da esquerda no Brasil e no continente?  
Para enfrentar o poderio econômico, político e militar do grande capital internacionalizado, cuja representação máxima é constituída pelo governo dos EUA – que conspirou contra o governo de João Goulart e contribuiu decisivamente para sua derrubada, dando total apoio à ditadura militar-civil, com características fascistas, que durou mais de 20 anos -, é necessária a unidade de todos os povos latino-americanos. Neste momento, o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela, tornou-se o alvo principal da ofensiva imperialista, ansiosa por liquidar as importantes conquistas da Revolução venezuelana. Mais do que nunca, nós, latino-americanos, devemos nos unir e contribuir para a integração dos povos do nosso continente.


Participação na palestra com Anita Prestes

Acompanhando os alunos da 3ª série de ensino médio da EEEFM Marinete de Souza Lira, Feu Rosa, Serra-ES. 





Participação no Coletivo Combate ao Racismo


Grupo De Teatro e Dança Estirpe

O SINDIUPES retomou as discussões para reestruturação do Coletivo de Combate a Racismo. No último sábado, o Sindicato fez uma reunião de planejamento para discutir alguns temas pertinentes e ações que podem ser implementadas ainda em 2014.
A reunião aconteceu no auditório da entidade e contou com a participação de representantes de instituições do Estado que militam nessa área.
Para embasar a discussão, o presidente do INSPIR (Instituto Sindical Interamericano Pela Igualdade Racial), Ramatis Jacino falou sobre a Lei nº 10.693, sancionada em 09/01/2003.

reuniao_racismo (44)
Ramatis Jacino
Essa Lei alteração em dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394, de 20/12/1996). De acordo com o novo texto, os estudos de história e cultura afro-brasileira devem ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, de forma a resgatar a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política brasileira. A obrigatorieade se estende aos estabelecimentos de ensino fundamental e médio e também institui o dia 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra.

domingo, 25 de maio de 2014


9º Encontro Internacional da Marcha Mundial de Mulheres

25 a 31 de agosto de 2013

 

“No batuque do tambor

Na revolta social

Nós somos as mulheres

Da Marcha Mundial!

Contra a pobreza e a opressão

O capitalismo patriarcal

Nós vamos provocar

Uma revolução mundial!

Êh mulheres, mulheres libertárias.

Êh mulheres, feministas, revolucionárias.”

 

 

 

Feminismo em Marcha para Mudar o Mundo

 

 Nós, mulheres brasileiras presentes no 9º Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), realizado em São Paulo, entre os dias 25 e 31 de agosto de 2013, reafirmamos a resistência, o enfrentamento e a construção de alternativas ao modelo patriarcal, capitalista, racista, lesbofóbico e colonial.

 

A MMM constrói desde o cotidiano, e a partir da realidade das mulheres, uma ação local conectada à articulação mundial em que a solidariedade é um eixo estruturante. Essa experiência se consolidou como uma força mundial, atualizando o feminismo como um projeto para garantir a igualdade entre todas as mulheres, nos marcos da construção de uma sociedade de mulheres e homens livres e iguais, sem discriminação de raça/etnia e com o livre exercício da sua sexualidade. Reconhecemos que é fundamental enegrecer o feminismo e aprofundar a reflexão entre patriarcado, colonialismo e opressão étnico racial, para resgatar nossas ancestralidades e fortalecer a presença das mulheres indígenas entre nós.

 O capitalismo passa por um importante processo de reestruturação para manter a ordem atual de exploração e opressão, reforçado com a atual crise mundial, evidenciando que vivemos em um modelo injusto e insustentável. Frente a todas as crises, esse sistema apresenta falsas soluções, que significam mais mercado e mais concentração de renda, impostas por meio de um processo violento dos Estados.

A expropriação da natureza, os ataques aos direitos e soberania dos povos, o controle sobre o corpo e a vida das mulheres, o aumento da militarização, a criminalização e a violência são mecanismos que sustentam a acumulação por espoliação.

 

A uma economia de mercado corresponde uma sociedade de mercado, com destaque para a expansão da mercantilização em todas as dimensões da vida humana. Isso se dá especialmente com a exploração do corpo das mulheres, desde a indústria da beleza, até o tráfico e a prostituição. Nosso corpo é constantemente controlado e regulado, a partir de padrões morais de sexualidade – heteronormativa, fálica, lesbofóbica e focada no prazer masculino – e na maternidade.

 Reafirmamos que a prostituição é estruturante do sistema capitalista e patriarcal. Nossa visão não é nem liberal, nem moralista, mas reconhece o direito das mulheres viverem sua sexualidade livremente. Repudiamos a cooptação do discurso feminista “meu corpo me pertence” para “meu corpo é meu negócio”. Por isso, somos contra o projeto do Deputado Jean Wylis, que, ao invés de contribuir para a melhoria de condições de vida das prostitutas, legaliza a sexualidade como um serviço mercantil, reforça a cafetinagem e aprofunda a exploração das mulheres. Denunciamos a imposição da maternidade como destino obrigatório das mulheres e reafirmamos a autonomia de decisão sobre os nossos corpos e o direito ao aborto legal, seguro e público. Reafirmamos nossa visão de que a sexualidade é construída socialmente, e defendemos o direito à lesbianidade como fundamental para o livre exercício da sexualidade sem coerção, sem estereótipos e sem relações de poder.

 A violência patriarcal está presente no cotidiano da vida de todas as mulheres. Ela é, muitas vezes, naturalizada e legitimada, e se fortalece também com as desigualdades de classe e raça, revelando o não reconhecimento das mulheres como sujeitos autônomos. Os dados deveriam assustar, principalmente diante do fato de que ainda há muito para ser denunciado, como os estupros coletivos e corretivos, o abuso sexual contra crianças e a impunidade em relação ao grande número de assassinatos de mulheres.

 Exigimos a condenação dos estupradores integrantes da Banda New Hit, que barbaramente violentaram duas fãs adolescentes na Bahia, e dos estupradores assassinos de Queimadas, na Paraíba. Exigimos a aplicação plena da Lei Maria da Penha. Em todos os casos, denunciamos a culpabilização das mulheres pela violência sofrida.

Nesse contexto, se intensificam a mercantilização dos bens comuns e o avanço e controle dos territórios para o agronegócio. O avanço sobre os territórios indígenas e quilombolas provoca morte e destruição. O povo Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul tem sido vítima de homicídios em número maior do que os países em guerra. Nas áreas urbanas há um aumento da especulação imobiliária, incentivada por grandes obras encomendadas pelos megaeventos. As mineradoras ampliam as áreas de exploração, gerando degradação da natureza e retirando as formas de sustento das mulheres. Isso está diretamente relacionado com o reforço da militarização e da exploração do corpo e trabalho das mulheres.

 

Exigimos que os recursos públicos, em particular do BNDES, não sejam destinados às grandes empresas para financiamento do agronegócio, dos megaeventos e do capitalismo verde. Denunciamos a imposição dos agrotóxicos e das sementes transgênicas, gerando dependência das agricultoras e agricultores. Somos protagonistas da resistência e da defesa de nossos territórios, a exemplo das mulheres de Apodi, em luta contra o agro e hidronegócio, e da afirmação da agroecologia como meio de produção de alimentos saudáveis, fundamentais para a garantia da soberania alimentar.

 Nesse modelo, o tempo e o trabalho das mulheres são utilizados como um fator de ajuste. A economia de mercado se sustenta a partir do nosso trabalho não remunerado e da desigualdade que vivenciamos no trabalho remunerado. Presenciamos um aumento do conservadorismo, com a valorização do papel das mulheres na família para justificar a sua sobrecarga de trabalho.

Construir a economia feminista e solidária significa alterar os padrões de (re) produção, distribuição e consumo, além de reconhecer e valorizar o trabalho doméstico e de cuidados como fundamentais à sustentabilidade da vida humana.

 O Estado capitalista é patriarcal, organizado a partir de uma lógica androcêntrica que reforça a divisão sexual do trabalho e as formas de controle sobre o corpo e a sexualidade das mulheres. O modelo de desenvolvimento hegemônico funciona a serviço das grandes empresas, expropriando os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, violentando as mulheres e tendo na militarização um de seus pilares de sustentação.

Lutamos para alterar essa lógica, o que só será possível se houver vontade política e incorporação de uma perspectiva feminista, que hoje é traduzida pela agenda de despatriarcalização do Estado. É preciso garantir políticas emancipatórias construídas com base na soberania e na participação popular.

Somos solidárias às companheiras de várias partes do mundo que tem seus meios de vida afetados pelas empresas extrativistas, pela Vale e pela expansão do agronegócio como o projeto Pró-Savana, em Moçambique. Questionamos a presença militar do Brasil em missões militares no Haiti e na República Democrática do Congo, bem como a compra de armas e tecnologia militar de Israel. A Organização Mundial do Comércio retoma negociações que reforçam a assimetria entre os países e a mercantilização da vida. O Brasil, ao contrário deve promover outra integração, baseada na redistribuição, na solidariedade e na reciprocidade, o que nós mulheres do mundo já estamos construindo através de nossos movimentos.

 Nossas formas de ocupação dos espaços públicos e políticos expressam a irreverência e a ousadia coletiva das mulheres.  A partir dos nossos métodos, ritmos e vozes, construímos a cultura feminista contra-hegemônica, que incorpora a juventude em um processo integrador de várias gerações como parte de um projeto comum de transformação de nossas vidas.

Resistimos ao monopólio dos meios de comunicação, à lógica da propriedade intelectual e ao controle dos fluxos de informação que violam nossa privacidade e privilegiam corporações transnacionais, construindo as nossas alternativas de produção de conteúdos, linguagens e meios de comunicação vinculados às lutas emancipatórias e por soberania popular.

Afirmamos que a auto-organização das mulheres é nossa estratégia de fortalecimento como sujeito político que constrói uma força mundial, em aliança com os movimentos sociais que compartilham da luta anti-capitalista, e por uma sociedade baseada nos valores de liberdade, igualdade, justiça, paz e solidariedade.

Marcha Mundial das Mulheres 

São Paulo, 31 de agosto de 2013.

sábado, 24 de maio de 2014

O complexo de Princesa Isabel na novela ‘Em Família’                   


Texto de Jéssica Romero.
Não sou tão noveleira assim, mas quando tenho tempo, acompanho o que me interessa. Assim tem sido com a novela global “Em Família”, com muitas personagens mulheres que protagonizam e carregam o peso de desenvolver o enredo da trama. Por isso, nas vezes que vi a novela, o desenvolvimento das histórias das personagens negras me incomodou muito, especialmente as personagens Dulce, Alice e Neidinha.
Três personagens negras na novela 'Em Família'. A esquerda, Dulce (Lica Oliveira). No centro, Alice (Erika Januza). A direita, Neidinha (Elina de Souza).
Três personagens negras na novela ‘Em Família’. A esquerda, Dulce (Lica Oliveira). No centro, Alice (Erika Januza). A direita, Neidinha (Elina de Souza).
Dulce (Lica Oliveira) é uma mulher bem sucedida, professora universitária e mãe adotiva de André (Bruno Gissoni), um rapaz branco. Desde a primeira cena dos dois e em todas que vejo, o jovem rejeita a mãe e tem atitudes racistas, um racismo velado. Ela, muitas vezes parece não saber como lidar com a situação e simplesmente não responde nada quando se sente ofendida ou chateada. Apesar de se mostrar mais assertiva em cenas recentes, quem geralmente aconselha André ou conversa com Dulce sobre o problema é Luiza (Bruna Marquezine), na época, namorada dele.
Luiza é, junto com Helena (Julia Lemmertz), a personagem principal da novela. Mas, em relação as personagens femininas negras parece ser uma Princesa Isabel, salvadora da pátria. Luiza é branca, rica, bonita e centro das atenções por onde passa. É encantadora, sedutora e, apesar de jovem, é uma mulher forte, segura e decidida. O que contrasta com as três personagens negras citadas, que são mostradas muitas vezes vitimizadas e empoderadas pelas atitudes de outras pessoas. Luiza é a melhor amiga de Alice (Érika Januza), elas foram criadas juntas devido à amizade de suas mães, que são cunhadas. Durante uma situação de racismo na praia, Alice é ofendida por um rapaz branco que questiona o fato dela (uma garota negra) estar frequentando aquele lugar. É Luiza quem defende Alice. Enquanto a vítima se cala e chora, a amiga assume a situação e altera a voz para o agressor, dizendo que racismo é crime. Depois de resolvida a briga, Luiza leva Alice até um advogado e explica seus direitos como vítima de racismo. Só algum tempo depois, Dulce e Alice se encontram e conversam sobre o assunto.
Antes que venham reclamar, não há nada de errado numa pessoa branca ajudar uma pessoa negra que foi vítima de racismo, a questão é que Alice poderia ser uma personagem cheia de iniciativa como Luiza, mas na representação das negras na televisão é mais comum vermos personagens vitimizadas que precisam sempre do auxílio de uma pessoa branca para terem voz.
Alice é filha de Neidinha (Eliana de Souza) e fruto de um estupro. Na primeira fase da novela, Neidinha é estuprada por um grupo de homens numa van, numa cena extremamente angustiante, que fez referência ao caso da turista americana que foi estuprada em 2013. Depois do estupro, Neidinha vai para casa e é consolada por Helena e pela família. E só. Saltam 20 anos na história, onde ela já aparece como mãe de Alice. Em momento algum se fala em registro de boletim de ocorrência, aborto ou qualquer coisa relativa à violência sofrida. Após esses 20 anos, Neidinha nunca mais se relacionou sexualmente com ninguém, dedicou sua vida ao trabalho de enfermeira num lar de idosos e enterrou o assunto. Não problematizar isso ou não contar nada sobre o que ocorre depois é anular completamente a voz da vítima, que já é vítima na novela e na vida real, pois a maioria das mulheres estupradas no Brasil é negra. Escolher omitir todo esse universo pós-estupro significa reforçar o estereótipo da mulher negra como marcada para ser uma vítima social conformada.
Passados os 20 anos, surge um novo conflito, Alice quer saber quem é seu pai, a quem a mãe se refere apenas como alguém que foi embora. O assunto é tabu na família, ao falar com seu irmão Virgílio (Humberto Martins) sobre a curiosidade da filha, Neidinha diz que: apesar de todo sofrimento vivido, não abortou porque achava que aquela criança não era culpada e, portanto não merecia morrer, mas sim nascer. Não abortar após um estupro é direito da mulher e é legítimo, essa é uma escolha que só cabe à vítima fazer. Mas, ao colocar a opção de não abortar através da justificativa de que a criança merecia nascer, pois não era culpada, Manoel Carlos e a Rede Globo reforçam um discurso extremamente ignorante e com cunho religioso, prestando desinformação e corroborando preconceitos em relação as mulheres que abortam. A justificativa da personagem poderia até ser fundamentada no seu emocional, em suas crenças pessoais, porém jamais reforçando um discurso que deslegitima a ideia de que a mulher estuprada deve ser tratada como prioridade, dona de seu corpo e de suas decisões em relação a ele.
Além dessas três personagens, a novela ainda conta com outras personagens negras. Uma delas é Rosa (Tânia Toko), empregada doméstica da família de Helena, sempre pronta a atender seus patrões em qualquer horário. Porém, o mais chocante é que na sala de Helena há uma estátua de uma mulher negra, carregando um jarro na cabeça. A falta de sensibilidade da produção ao colocar essa escultura na sala de “Heleninha” e o fato de que ninguém percebe o quanto isso é racista, só demonstram o quanto essa questão ainda está longe de ser levada a sério no Brasil.
A esquerda, Rosa (Tania Toko) aparece com a estátua de uma mulher negra carregando um objeto na cabeça ao fundo. A direita, em outra cena, a mesma escultura pode ser vista ao fundo da cena com Helena (Julia Lemmertz).
A esquerda, Rosa (Tânia Toko) aparece em frente a estátua de uma mulher negra carregando um objeto na cabeça. A direita, em outra cena, a mesma escultura pode ser vista ao fundo da cena com Helena (Julia Lemmertz).
Dulce, Alice e Neidinha poderiam ser representações positivas de mulheres negras na televisão. Nenhuma delas é empregada doméstica, o papel clássico das atrizes negras. As três parecem fazer parte da classe média e representam diferentes mulheres negras, em diferentes fases da vida. Porém, grande parte dessas características positivas se perde na passividade e nos estereótipos que cercam as personagens.
Em vez de usar o alcance da televisão e da telenovela para informar as mulheres e desconstruir um discurso opressor diante da violência, a novela tem servido para reforçar o papel social da mulher negra. Ela serve a mulher branca, sofre violência e não levanta sua voz, só toma consciência de sua posição social e seus direitos quando alguma outra figura, branca, vem fazer o papel do herói com nosso eterno complexo brasileiro de Princesa Isabel. Vou continuar acompanhando a trajetória das personagens e espero que elas se pareçam com as mulheres negras reais, que a cada dia mais se descobrem empoderadas pelo feminismo negro e pela própria tomada de consciência da opressão.
Jessica Romero
Jessica Romero
Autora
Jéssica Romero é mulher, feminista e jornalista. Em construção.

sábado, 17 de maio de 2014

A história dos movimentos sociais no Brasil, as questões de gênero já começam a aparecer nesse momento


Marcha Mundial das Mulheres - fortalecimento dos movimentos sociais de genero

A Marcha Mundial das Mulheres nasceu no ano 2000 como uma grande mobilização que reuniu mulheres do mundo todo em uma campanha organizada a partir do chamado “2000 razões para marchar contra a pobreza e a violência sexista”. A ação marcou a retomada das mobilizações das mulheres nas ruas, fazendo uma crítica contundente ao sistema capitalista como um todo, e, a partir daquele ano, a MMM se constituiu como um movimento permanente.
Em 2010, foi realizada a 3ª Ação Internacional da Marcha. Mais de 52 países participaram, mobilizando mais de 38.000 mulheres. Foram elaboradas plataformas de reivindicações baseadas em quatro campos de ação: autonomia econômica das mulheres, bens comuns e serviços públicos, violência contra as mulheres, paz e desmilitarização.
No Brasil, entre os dias 8 e 18 de março, 3 mil mulheres marcharam entre Campinas e São Paulo, sob o lema “seguiremos em marcha até que todas sejamos livres”, afirmando o direito á auto-determinação das mulheres e a igualdade como base da nova sociedade que lutamos para construir.
Mulheres em movimento mudam o mundo!
Para combater o machismo e o capitalismo é necessário um movimento autônomo, popular e diverso. Constróem a MMM mulheres urbanas e rurais – camponesas, sindicalistas, jovens, lésbicas, negras e indígenas. Como mulheres auto-organizadas, construímos sínteses para fortalecer uma utopia comum, que busca conquistar igualdade real para todas as mulheres, não só para algumas.
A relação entre o movimento autônomo de mulheres e os movimentos mistos, assim como o fortalecimento dos movimentos sociais são estratégias fundamentais para garantir que as transformações propostas e realizadas incorporem a construção de igualdade como eixo central.
Atualmente a MMM está organizada em torno de uma plataforma política em 17 estados brasileiros. É um movimento aberto a todas as mulheres e coletivos feministas que compartilhem a visão de que as mulheres são sujeitos ativos na luta pela transformação de suas vidas e que ela está vinculada à necessidade de superar o sistema capitalista, patriarcal, racista, homofóbico e destruidor do meio ambiente.
Ofensiva contra o machismo!
“Somos mulheres e não mercadoria” é nossa palavra de ordem que expressa a essência de nossa luta contra o patriarcado, o capitalismo, o racismo e a homofobia. A tirania do mercado se ancora na exploração das mulheres, tratadas como um produto que se adapta às exigências do mercado.
A definição da “feminilidade” é marcada pela dependência em relação às expectativas masculinas, reais ou imaginadas. Basta olhar ao redor para perceber que estamos cercadas de produtos a serviço da “feminilidade”, que se baseiam na exploração e na naturalização dessa dependência. Na publicidade, a mulher é constantemente representada como um objeto de consumo, que, para ter valor, tem que seguir um padrão. Para atingir esse padrão, ela deve aceitar as condições do mercado e consumir uma enorme quantidade de produtos e serviços. As mulheres exibidas nessas propagandas viram “modelos de perfeição”, modelos que as mulheres perseguem como se fosse uma condição para sua realização.
Hoje, cada vez mais mulheres sofrem com transtornos alimentares como bulimia e anorexia, que estão entre as principais causas de morte de mulheres jovens. Essa feminilidade imposta é útil para a indústria da beleza. Remédios para emagrecer, moderar apetite, limpar a pele, e antidepressivos são oferecidos para as mulheres como soluções mágicas para se encaixar no padrão.
A ofensiva contra a mercantilização se constrói no cotidiano da atuação dos núcleos da MMM, com formações, ações diretas, batucadas feministas, manifestações etc. Esta agenda nos permite articular a crítica ao machismo a que todas nós estamos submetidas cotidianamente (que se manifesta em desqualificações, assédios e cantadas, coisificação pela mídia e publicidade, violência, controle da nossa sexualidade etc) ao sistema capitalista e patriarcal que se reproduz às custas da exploração do trabalho, do corpo e da vida das mulheres.
A luta contra a sociedade de mercado e a resistência à mercantilização do corpo e da vida das mulheres é um eixo fundamental para uma ação feminista que seja protagonista de uma transformação profunda da ordem social global e, também, para a construção de um feminismo não institucionalizado e militante.
Em marcha!
A Marcha Mundial das Mulheres é um movimento feminista internacional e anti-capitalista. É um movimento permanente, composto por mulheres auto-organizadas em nível local, mas articuladas em processos nacionais e internacionais